Eu amo chuva, com todas as minhas forças. Quando era pequena, lembro nitidamente de que quando chovia eu simplesmente mudava (e isso acontece ainda hoje). Podia estar triste, emburrada (por algumas frivolidades), desiludida com a vida, radiante quanto uma verminosa, mas começava a chover e, quase que instantaneamente, ondas de energias vibrantes, alegres e contagiantes tomavam conta de mim. Eu queria sair, aproveitar o paraíso lá fora, mas minha mãe esquecia qualquer coisa que havia programado, para ficar chocando em casa. E foi então, que eu descobri que as pessoas ficavam mórbidas, depressivas e com sentimentos suicidas quando chovia; se transformavam meramente no verso do meu inverso. Elas passavam a desmarcar seus compromissos e não conseguiam continuar com as suas atividades cotidianas, porque tinham a chuva como um estúpido empecilho. Pareciam ser acometidas, repentinamente, por uma espécie de ombrofobia, e tudo ia para o ‘beleléu’. Eu não conseguia entender tal comportamento, e acho que me despedirei desta vida sem compreendê-lo. Às vezes, só o fato de olhá-la funcionava como uma fórmula enfeitiçada, um ‘hidrocombustível’, capaz de recarregar minha paz de espírito. Mas é claro que na maioria das vezes eu precisava, antes de mais nada, tomar um belo banho e alimentar a resistência do meu organismo, ao ingerir uma infinidade de gotinhas.
Nos tempos de escola, eu era uma das poucas alunas que apareciam por lá debaixo de chuva. Salas e corredores ficavam completamente vazios. Almas aparentemente infelizes perambulavam como se tivessem partido em direção a outras paragens e voltado para resolver assuntos que haviam ficado pendentes, ou apenas para recolher seus simplórios restos mortais. Sem falar naquele aspecto sonolento que se fazia presente em todos os rostos, num processo lamentável e irreversível. Um tanto quanto macabro, não achas? E enquanto isso, eu lá, toda feliz da vida, cantando com as paredes, esbanjando gás e tentando salvar alguns ‘casos perdidos’. Quando eu ouvia um ‘Eu odeio chuva’, lembrava das aulas de Estudos Sociais, sobre os pobres do sertão nordestino, e um labirinto de revoltas me invadia. Eles dariam a vida por uma chuva, enquanto alguns pobres de bom-senso eram capazes de utilizar uma palavra de baixo escalão para se referir à tamanha benção.
O fato de chover razoavelmente em Manaus, talvez seja o único motivo por eu ainda aceitar a azarenta sorte de ter nascido aqui. Mas a nossa chuva tem uma triste regra: pode chover o que for, raramente fica frio (e esse raro ainda é uma lenda), o normal é ficar espetacularmente abafado. O sol cospe fogo durante todo o ano, minha gente! Eu já disse que prefiro andar debaixo de chuva a andar debaixo de sol? Isto é algo que fica subentendido em todas as entrelinhas. Mas a explicação é bem simples: as chuvas são como paliativos para aliviar a dor e ocupar o vazio da minha permanente falta de inverno.
Chuva: tamanha vibração, que pode levar a mais profunda renovação. Esqueça tudo que você estudou sobre fenômenos meteorológicos e pare para observar, com o ingênuo olhar de uma criança, como é extraordinariamente mágico o fato de cair água do céu e ver a harmônica sincronia do universo se encaixando com a mais perfeita das perfeições. Por uma fração de tempo, poder esquecer a obscuridade da vida, da terra e das pessoas, e acreditar na doce ilusão de um possível final feliz para esse mundo de ignóbeis. Tomar um banho de chuva, capaz de lavar até mesmo a alma; ‘comer’ aquelas finas gotículas, como se fossem flocos de neve e ter a capacidade de se transportar para qualquer lugar, são coisas que, definitivamente, não têm preço.
Se eu fosse estudante de psicologia, meu TCC seria sobre as inúmeras propriedades terapêuticas da chuva – A Chuva Cura! Tenho certeza que seria um trabalho de imensurável ajuda para essa humanidade psicologicamente afetada. Entretanto, como faço jornalismo... Talvez o mundo esteja perdendo uma grande psicóloga! Mas quem se importa?
Ziguezague, xeque-mate, vida, universo, trovão, Switzerland, raciocínio, quimera, paz, orquestra, natureza, memória, luzes, Júpiter, imaginação, hiena, gelo, força, esmero, desencanto, Chopin, beijo, amor. Acredito que tudo isso lembra e combina com chuva, ou vice-versa. Chega a ser assombroso, os poderes sobrenaturais de alguns indivíduos, como o de se estressar com uma tão fabulosa arte divina. Roupa molhada, chapinha comprometida, maquiagem borrada e uma gripe acometida. É possível pensar em coisas absolutamente demasiadas, diante de tamanha magia da natureza? E ainda por cima, estando em Manaus? (Vai ver, o sol anda fritando muitos miolos. E ao olhar por esse prisma, até que algumas antigas correntes deterministas não eram tão equívocas assim, né? Mas abafa o caso!).
Eu entendo que muitas pessoas, hoje, tenham suas razões para detestar a Chuva. É uma pena, mesmo, que esta maravilha – uma encantadora precipitação de gotas d'água no estado líquido sobre a superfície da Terra – esteja servindo de ferramenta para ocasionar tantos desastres, ceifar vidas e trazer imensos transtornos. Mas a nossa Mãe tem razões maiores, acredite. Creio que seja uma forma de ela pedir um ‘stop’ ao ser humano. Não podemos ouvi-la gritar por socorro, mas podemos vê-la estampada em cada rostinho desesperado que sofreu irreparáveis perdas. O nosso melhor e maior mestre ainda é o sofrimento. E eu me questiono: o quanto ainda teremos de sofrer para aprendermos a viver? A resposta ecoa na minha mente, e é algo que me assombra.
Mas, porém, todavia, contudo, entretanto... Meu amor por ti, chuva, nunca vai acabar! Podes vir sem avisar, sempre a estarei esperando de braços abertos e com as minhas mais belas recordações. As portas da felicidade estão abertas, e o ingresso é por cortesia da casa. Não existe modo mais fácil e eficiente de se embriagar, se perder e se achar. É como eu sempre digo: tudo é uma questão psicológica. Vamos tomar um banho de chuva?


